Dona Severina tem 74 anos e nunca saiu de Brejo da Madre de Deus. Nem quando as enchentes de 2022 levaram metade do seu bairro. Nem quando a prefeitura ofereceu uma casa em outro município. Nem quando os filhos, já estabelecidos em Caruaru e no Recife, insistiram para que ela fosse embora.

"Minha vida inteira está aqui", ela diz, sentada na calçada de uma rua que ainda guarda marcas d'água nas paredes. "Meu marido está enterrado aqui. Minha mãe está enterrada aqui. Eu vou embora pra quê?"

Brejo da Madre de Deus é um município de 45 mil habitantes no Agreste pernambucano, a 200 quilômetros do Recife. Nos últimos dez anos, sofreu três enchentes significativas — em 2017, 2022 e 2024 — que destruíram bairros inteiros, deslocaram milhares de famílias e deixaram um rastro de perdas que vai muito além do material.

Mas a história de Brejo não é apenas uma história de destruição. É também uma história de como comunidades constroem resiliência, de como o pertencimento a um lugar pode ser mais forte do que o medo, e de como o Estado frequentemente chega tarde e vai embora cedo.

Passei uma semana na cidade em abril, conversando com moradores, funcionários públicos, pesquisadores e lideranças comunitárias. O que encontrei foi mais complexo do que a narrativa de vítimas e heróis que frequentemente domina a cobertura de desastres.

Havia raiva — contra a prefeitura que não dragou o rio, contra o estado que prometeu obras que nunca vieram, contra o governo federal que liberou verbas que sumiram. Havia também resignação, a sensação de que isso sempre foi assim e sempre vai ser assim.

Mas havia, acima de tudo, uma teimosia admirável. A teimosia de quem decide ficar não por falta de opção, mas por escolha. Por amor a um lugar. Por recusa em deixar que a água — ou a negligência do poder público — decida o destino de uma vida inteira.

Dona Severina me mostrou as fotos do seu casamento, guardadas num envelope plástico que ela carrega sempre que chove forte. "Esses eu salvo primeiro", ela diz. "O resto, a gente reconstrói."