As mãos de Zé do Boi contam uma história. São mãos de trabalhador rural — calejadas, marcadas pelo sol do sertão, com dedos que já quebraram e cicatrizaram várias vezes. Mas são também mãos de artista. Mãos que por mais de sessenta anos deram vida a bonecos de madeira, que fizeram crianças gargalharem e adultos chorarem, que preservaram uma forma de teatro popular que remonta ao século XVII.
José Ferreira da Silva, o Zé do Boi, tem 81 anos e mora em Arcoverde, no Sertão pernambucano. É considerado por pesquisadores e folcloristas um dos últimos grandes mestres do mamulengo — o teatro de bonecos tradicional do Nordeste — ainda em atividade.
"Aprendi com meu pai, que aprendeu com o pai dele", ele conta, enquanto ajusta um dos bonecos na bancada improvisada na sala de sua casa. "Não tem escola pra isso. Tem é convivência."
O mamulengo é uma forma de teatro popular que combina bonecos manipulados manualmente, música ao vivo, improviso e humor. As histórias tradicionais envolvem personagens arquetípicos — o Capitão, o Benedito, a Catirina — e frequentemente satirizam o poder, celebram a astúcia do povo simples e abordam temas do cotidiano sertanejo.
Zé do Boi aprendeu o ofício aos 15 anos, acompanhando o pai em feiras e festas pelo interior de Pernambuco. Por décadas, foi a principal fonte de renda da família. Hoje, é mais vocação do que sustento — a maioria dos eventos em que se apresenta não paga cachê, ou paga muito pouco.
"Não faço pelo dinheiro mais", ele admite sem amargura. "Faço porque é o que sei fazer. Porque quando os bonecos entram em cena, as pessoas esquecem os problemas. Isso não tem preço."
O problema é a continuidade. Dos seis filhos de Zé do Boi, nenhum aprendeu o ofício. Os netos mostram interesse, mas vivem em outras cidades. Os jovens de Arcoverde têm outras prioridades.
"Quando eu morrer, vai morrer comigo", ele diz, sem dramatismo. É uma constatação, não uma lamentação. "A não ser que apareça alguém com vontade de aprender de verdade."