Recife é uma cidade de contradições que coexistem sem se resolver. É a cidade dos arranha-céus mais altos do Nordeste e dos mocambos que resistem nas margens dos rios. É a cidade do frevo e do maracatu, mas também dos condomínios fechados e dos shopping centers que poderiam estar em qualquer lugar do Brasil.

Nas últimas duas décadas, a cidade passou por uma transformação acelerada. Bairros inteiros foram demolidos e reconstruídos. Comunidades foram removidas para dar lugar a empreendimentos imobiliários. O skyline mudou de forma irreversível.

Mas há resistências. Há lugares e pessoas que se recusam a desaparecer.

Comecei minha caminhada no Cais José Estelita, onde em 2012 uma ocupação popular impediu — temporariamente — a construção de um complexo imobiliário no último trecho de orla do centro histórico. A batalha foi perdida no longo prazo, mas criou um movimento que mudou a forma como a cidade discute urbanismo.

Segui pelo bairro do Recife Antigo, onde a gentrificação criou um cenário ambíguo: de um lado, a preservação de casarões históricos e a criação de um polo cultural; de outro, a expulsão dos moradores originais e a transformação do bairro num parque temático para turistas e classe média.

Terminei no Coque, uma das comunidades mais antigas do Recife, que sobreviveu a décadas de pressão imobiliária e ainda mantém uma vida de bairro que as áreas nobres da cidade perderam há muito tempo. Crianças brincando na rua, vizinhos conversando na calçada, o cheiro de comida saindo pelas janelas abertas.

O Recife que ainda existe, apesar de tudo, é esse. Não o dos cartões-postais, mas o das pessoas que insistem em fazer da cidade um lugar habitável.